28 de out de 2009

Minha posição em relação à música gratuita

Acho que preciso esclarecer algumas coisas em relação ao que eu penso sobre música gratuita na internet:

1) Não faço parte de nenhuma das duas torcidas mais comuns. Não acho que tudo tem que ser gratuito e acabou, nem posso concordar com que se tente punir quem baixa música de graça.

2) Não acho que a gratuidade seja uma meta. Ela é um mal irreversível para os artistas em atividade, contra o qual é tão inútil lutar, como não concordar com a lei da gravidade.

3) A música tem custo e valor, ela não é feita de graça. A música grátis tem que fazer parte de uma estratégia para divulgar e vender - seja música, ingressos de shows ou merchandising.

Digo essas coisas porque sinto que preciso me posicionar para não ser colocado como exemplo de posturas que não tenho.

Faço parte do Música Para Baixar porque acredito que não haja como controlar o compartilhamento de música pela internet. E que, em diversos casos, o controle seria péssimo para a cultura. Vejam os casos de discos que estão fora de catálogo. O desinteresse de uma gravadora em lançar o repertório de determinado artista colocava-o no ostracismo irreversível. Que direito têm as gravadoras de impedirem a sociedade de ter acesso a um bem cultural? Quantas jóias ficavam trancadas nos cofres dos detentores de direitos autorais e agora circulam livremente pela rede, beneficiando artistas e público? Processar os fãs, ou impedir que eles tenham acesso ao que desejam, nunca me pareceu uma estratégia muito inteligente para se conquistar mais fãs. Outro dia – outubro de 2009! - vi um advogado da indústria do disco dizer que a forma de se controlar os downloads “ilegais” é usando de tecnologia e que o DRM é uma forma eficiente de fazê-lo. Em que mundo essa pessoa vive? Todo mundo desistindo do DRM e ele achando que é solução!

Quais a principal vantagem da gratuidade? Divulgação. A música gratuita chega muito mais facilmente às pessoas, já que elas podem conhecê-la antes de se decidir a gastar dinheiro. Se você não der, a possibilidade de que as pessoas queiram se arriscar no escuro é infinitamente menor. Se compararmos ao preço do jabá para ter execução em rádio, o compartilhamento de arquivos é uma bênção para os artistas. Os fãs fazem o trabalho que precisamos, sem cobrar, e gratos pela nossa generosidade. Daí o mote do Música Para Baixar: Fã não é pirata! É divulgador. E esse quer nos ajudar financeiramente para que continuemos a dar o que ele quer: música de qualidade.

Quando as rádios começaram a executar música as gravadoras acharam que ela seria danosa para as vendas, porque ninguém compraria algo que estava sendo entregue de graça nas casas das pessoas. E nada foi tão importante para divulgar e vender música quanto o rádio. Estamos no mesmo caso. Nada divulga e populariza tanto a música quanto o acesso gratuito à mesma.

Por outro lado, não quero o fim do direito de autor – embora ache que ele precise ser revisto -, não acho que a cultura é social e gratuita por princípio, não quero o fim das gravadoras. E quero ganhar dinheiro sem culpas esquerdistas.

Resumindo, não há negócio nem profissão que seja totalmente gratuito. Alguém tem que pagar alguma coisa em algum momento para que haja profissionais sobrevivendo daquele negócio. Mas a proibição de compartilhamento de música na rede, além de impossível, não vai ser o esteio financeiro dessa história. Quero que abracemos a gratuidade como uma das ferramentas para nos aproximarmos do nosso público e criarmos uma outra forma mais inteligente e contemporânea de ganharmos a vida fazendo música. Dialogando o @penas, música é profissão, sim. Mas muito diferente do que já foi.

19 de out de 2009

Oposição ao projeto da resposta gradual do governo britânico aumenta de tom



Mais um artigo muito bom do Remixtures que nós reproduzimos aqui. Recomendo a todos que não deixem de ler os outros posts. O Miguel Caetano escreve muito mais frequentemente que nós e tem sempre um milhão de informações relevantes para quem se interessa pelo assunto.

Com que o governo britânico não deveria estar a contar era que o projecto de implementação de um sistema de resposta gradual em três etapas contra a partilha não autorizada de ficheiros apresentado pelo Secretário dos Negócios Peter Mandelson em Agosto fosse recebido com tanta animosidade.

Depois de um deputado do próprio executivo trabalhista de Gordon Brown ter proposto uma moção de oposição à suspensão do acesso à Internet dos alegados partilhadores, uma comissão parlamentar publicou um relatório onde arrasa completamente com a resposta da indústria discográfica à partilha de ficheiros e a sua incapacidade em apresentar alternativas legais populares aos sites de torrents e P2P. Como se isto não bastasse, o ISP britânico TalkTalk veio mais uma vez relembrar aos detentores de direitos e ao governo porque é que é injusto cortar a ligação de banda de larga de alguém apenas com base num endereço IP.


Quando o proprietário do endereço IP não é o culpado

A relação conturbada entre a TalkTalk e os detentores de direito não é propriamente recente. Há cerca de ano e meio a companhia garantiu que não iria aceitar servir de “cão de guarda” da indústria discográfica apenas porque esta tinha sido incapaz de se ajustar às mudanças tecnológicas. Mais recentemente, em Junho passado, o seu director executivo Charles Dunbstone afirmou que será sempre impossível travar a partilha não autorizada de músicas e filmes.

Como que para certificar-se de que a mensagem chegou a quem de direito, a TalkTalk resolveu agora demonstrar na prática a sua aquilo que já toda a gente com alguns conhecimentos de tecnologia e segurança informática sabia: não é justo sancionar um utilizador apenas porque a sua rede sem fios foi empregue sem o seu conhecimento para cometer um acto ilícito.

O ISP enviou um perito em segurança informática a uma rua de um bairro residencial de Stanmore, uma cidade pertencente ao condado de Middlesex, nos arredores de Londres. Uma vez aí chegado, ele começou a procurar por redes Wifi:

No período de algumas horas ele identificou 23 ligações sem fio na rua, mais de um terço do tal – que se encontravam vulneráveis a intrusões,” escreveu o director de estratégia e legislação da TalkTalk Andrew Heaney no blog da empresa. Dessas ligações, seis por cento estavam totalmente abertas (sem qualquer tipo de encriptação) e 28 por cento utilizavam tecnologia WEP, um protocolo de encriptação de dados que pode ser facilmente derrubado.

Após violar a segurança dessas redes (cujos proprietários tinham previamente dado autorização para tal), o perito copiou então uma série de downloads legais de músicas, incluindo o tema “Mandy” de Barry Manilow e a banda sonora do filme Peter’s Friends. Das 68 ligações WiFi encontradas, apenas uma usava WPA2, o protocolo de segurança mais forte. A maioria (65%) estava protegida com WPA que desde Agosto deste ano já não é considerado invulnerável.

Se estes resultados até não são tão maus assim, é preciso salientar que num outro bairro de Londres o mesmo perito descobriu que 41 por cento das ligações estavam vulneráveis. Segundo a TalkTalk, estes testes comprovam que a resposta gradual proposta pelo governo é completamente impraticável. Mais ainda, se levado às ultimas consequências, este sistema irá comprometer gravemente o princípio da presunção de inocência e, consequentemente, os direitos fundamentais dos cidadãos.

Já a pensar nestes eventuais problemas, no seu projecto de lei HADOPI o governo francês exige que o internauta seja responsável por garantir a segurança da sua ligação. Quem não cumprir, arrisca-se ao pagamento de uma multa. Mas segundo a TalkTalk, “é absurdo responsabilizar legalmente as pessoas pelo tráfego das suas ligações à Internet e exigir-lhes que impeçam qualquer tipo de tráfego não autorizado.”

COMISSÃO PARLAMENTAR: As editoras discográficas é que são as culpadas do problema da partilha de ficheiros

Enquanto isso, o All Party Parliamentary Communications Group (apComms) – um comité composto por deputados e lordes que se destina a estabelecer a ponte entre a indústria dos media e o Parlamento -, publicou um relatório que tinha vindo a ser elaborado desde Abril e que, entre outros temas relacionados com a privacidade, a pedofilia e a segurança no meio digital, trata da partilha de ficheiros. E as suas recomendações não podiam ser mais avassaladoras para as esperanças do executivo de cortar a ligação à Internet dos alegados partilhadores britânicos:

58. Concluímos que o problema da partilha ilegal de material protegido por direitos de autor foi provocado pelos próprios titulares de direitos e a indústria musical em particular foi bastante lenta a disponibilizar alternativas populares legais.

59. Consideramos que o corte do acesso dos utilizadores finais é totalmente inconsistente com as políticas de promoção do governo electrónico e recomendamos que se coloque de lado esta forma de lidar com a partilha ilegal de ficheiros.

60. Consideramos que é inapropriado tomar opções políticas no Reino Unido numa altura em que a Comissão Europeia e o Parlamento Europeu ainda não chegaram a um consenso nas suas suas negociações relativas ao Pacote Telecom. Recomendamos que o Governo termine o seu processo actual de tomada de decisões política e o recomece com uma nova consulta assim que a União Europeia tomar as suas decisões.

Outra questão bastante importante para os utilizadores da Internet abordada no documento tem a ver com a defesa da neutralidade da rede. Neste sentido, os parlamentares britânicos defendem a posição assumida recentemente nos Estados Unidos pela Comissão Federal das Comunicações (FCC) de converter os princípios de base de uma Internet livre e aberta em leis:

212. Recomendamos que a Ofcom (entidade reguladora do mercado de telecomunicações britânico) mantenha em análise a questão da “neutralidade da rede” e inclua uma secção em cada relatório anual que indique se existem ou não sinais de mudança.

214. Recomendamos que a Ofcom legisle no sentido de exigir aos ISPs que indiquem claramente uma velocidade mínima garantida para as ligações de banda larga.

Por fim, uma sondagem online encomendada pelo Open Rights Group (ORG) à empresa de estudos de opinião YouGov baseada numa amostra de 1967 indivíduos de idade adulta revelou que 68 por cento dos inquiridos consideram que os indivíduos acusados da partilha não autorizada de ficheiros deveria ter direito a um julgamento imparcial antes de ser alvo de uma suspensão ou de qualquer outro tipo de sanção. Em contrapartida, apenas 16 por cento disse ser a favor de suspensões automáticas. Mais importante do que isso: 31 por cento admitiu que pensaria muito bem antes de votar num partido que apoiasse tal tipo de medidas. Um recado que deverá ser certamente levado em conta por todos os partidos actualmente no governo de países europeus.

(foto de alsokaizen segundo licença CC-BY-NC 2.0)

14 de out de 2009

A Música Brasileira precisa de todos nós!!


Quarta-feira que vem, dia 21 de outubro, será uma data importantíssima e definitiva numa luta da Música Brasileira que começou há alguns anos. Será votada a PEC – Projeto de Emenda Constitucional - que isentará a música nacional de impostos para a venda, o que já acontece com livros, revistas e periódicos. Em alguns casos, o peso do imposto no preço de um CD beira os 30% e para as compras pelo celular, chegamos a 40%!

Para que o Projeto se transforme em Emenda Constitucional precisamos de 3/5 do total dos deputados votando favoravelmente. Isso é algo muito difícil de conseguir. Primeiro, por conta do quorum – eles precisam estar presentes no Plenário -, depois pelo número de votos que é muito alto. Se conseguirmos vencer essa batalha, haverá outra votação igualzinha para confirmar o resultado – é, mudar a constituição não é nada fácil. Nessa ocasião teremos que nos mobilizar novamente.

O que vocês podem fazer? Mandem e-mails, liguem, incomodem os deputados dos seus estados para que eles estejam presentes à votação e ajudem a música brasileira com seu voto.

Aqui vai uma sugestão de texto, para facilitar o trabalho de vocês:

Exmo. Senhor Deputado xxxxxx

Venho pedir em nome da Música Brasileira que o senhor esteja presente à votação da PEC da Música, dia 21 de outubro, quarta-feira, e que nos ajude nessa cruzada cultural com o seu voto.

Vamos incentivar uma forma de arte que tão bem representa o talento do povo brasileiro. Nós, o povo, contamos com o senhor.

Agradecido (a)

xxxxxxxxxxxxxxx


Aqui está o link com os e-mails, partidos e estados de todos os deputados. Mãos à obra. Nós precisamos de vocês. Ficamos muito gratos com o seu engajamento.

Quem tiver dificuldades em achar os endereços eletrônicos dos deputados, avise aqui que eu ajudo

13 de out de 2009

O grátis como uma arma


Free, do Chris Anderson, editor da Wired, é um livro inspirador. História, negócios, cultura e tecnologia em torno do custo zero.O livro é cheio de insights inspiradores de saídas para alguns dos impasses atuais, propondo estratégias para prosperar partindo de um modelo de grátis – mesmo que aqui e ali ele force um pouco a barra para provar sua tese. Ora, tecer loas ao Second Life, a esta altura do campeonato, é no mínimo estranho.

Como disse alguém numa resenha na Amazon: é um bom início de conversa.

Como não podia deixar de ser, o livro também trata do negócio da música. Há uma passagem em que Anderson narra o nascimento da música transmitida por rádio e o consequente surgimento das paradas de sucesso. Me lembrou a batalha que hoje é travada entre as webradios e as detentoras dos direitos das músicas.

Aqui vai o trecho traduzido:

***

Há setenta anos atrás, uma batalha (...) foi travada em torno da música gravada. No final dos anos 30, o rádio estava emergindo como um formato de entretenimento popular, mas também mexeu com as antigas formas de remuneração dos músicos. A maioria das rádios naquele tempo era ao vivo e os músicos e compositores eram pagos por performance única. Mas, para os artistas, essa forma de pagamento não parecia justa, já que estavam sendo transmitidos para milhões de ouvintes. Se esses millhões fossem colocados numa sala de concerto, a parte dos músicos na receita seria muito maior.

As rádios argumentavam que era impossível pagar baseados em quantos ouvintes estavam sintonizados porque ninguém sabia ao certo que número era esse. Mas a ASCAP, com seu quase-monopólio sobre os artistas mais populares, ditava as regras. Insistia em royalties de 3 a 5 por cento da renda bruta dos anúncios em troca do direito das rádios tocarem a música. Pior, ameaçava aumentar essa taxa quando os contratos expirassem em 1940.

Enquanto as rádios e a ASCAP negociavam, as rádios passaram a tomar conta da situação e cortaram inteiramente as transmissões ao vivo. A tecnologia de gravação estava melhorando e mais e mais rádios começavam a tocar discos, que eram introduzidos por um locutor do estúdio chamado disk jockey. As gravadoras responderam vendendo discos estampados com "SEM LICENÇA PARA EXECUÇÃO EM RÁDIO", mas em 1940 a Suprema Corte declarou que a estação de rádio, ao comprar o disco, poderia tocá-lo. Então a ASCAP convenceu seus membros mais proeminentes, como Bing Crosby, a simplesmente parar de gravar discos.

Deparando com a fonte de músicas executáveis encolhendo e uma exigência de royalties potencialmente ruinosa, as rádios passaram a organizar sua própria agência de royalties, a Broadcast Music Incorporated (BMI). A BMI em ascensão se tormou um imã para músicos regionais, tais como artistas de rythm-and-blues e country-and-western, que eram tradicionalmente preteridos pela ASCAP baseada em Nova York. Devido ao fato desses músicos menos conhecidos desejarem mais exposição que dinheiro, concordaram que as rádios transmitissem sua música de graça. O modelo de negócio de cobrar das rádios uma fortuna pelo direito de transmitir música entrou em colapso. Por sua vez, o rádio foi reconhecido como o principal canal de marketing para os artistas, que faziam seu dinheiro vendendo discos e apresentações.

A ASCAP desafiou este estado de coisas com vários processos nos anos 50 e 60, mas nunca recuperou o poder de cobrar royalties altos às rádios. As rádios de graça mais royalties nominais para artistas criaram a era do disk jockey e, por sua vez, o fenômeno das paradas de sucesso. Hoje esses royalties são calculados baseados numa fórmula envolvendo tempo, alcance e tipo de estação, mas são baixos o bastante para as rádios prosperarem.

A ironia foi completa. Em vez de enfraquecer o negócio da música, como a ASCAP temia, o Grátis ajudou a indústria da música a se tornar imensa e lucrativa. Uma versão inferior grátis da música (baixa qualidade, disponibilidade imprevisível) passou a ser ótimo marketing para uma versão superior paga e a renda dos artistas passou da apresentação para os royalties de gravação. Agora, o Grátis proporciona novamente uma troca, à medida em que música gratuita serve como marketing para o crescente negócio do shows. O único fator que permanece inalterado, como era de se esperar, é que as gravadoras ainda são contra.

9 de out de 2009

Fazendo as pazes II - Na Inglaterra os artistas pedem a palavra


John Newton da P2Pnet teve uma conversa com Billy Bragg - artista inglês de rock alternativo e membro da FAC (Featured Artists Coalition), organização de artistas que procura se posicionar coletivamente sobre os problemas da profissão nesses novos tempos - e chegaram a quatro pontos para tentar um entendimento entre todas as partes interessadas. Aí incluídos, especialmente, artistas e fãs.

1. Os criadores querem e precisam ser pagos e nós, amantes da música, queremos pagá-los.
2. Tentar usar sanções técnicas para resolver o “problema da pirataria” não vai funcionar de jeito algum.
3. Temos que começar a conversar, e manter as conversas abertas, até encontrarmos caminhos para solucionar os vários assuntos que têm nos mantido separados.
4. Precisamos de um espaço na internet onde todos possam se encontrar e encontrar soluções inteligentes, sem animosidade.

Está nos planos o lançamento de um blog no futuro próximo para que esse encontro se realize.

É muito louvável essa medida dos artistas ingleses, que estão procurando ter voz ativa no processo ao invés de deixarem as gravadoras, os governos e os “piratas” conduzirem esse barco.

Essa foi a intenção do meu primeiro texto “Fazendo as pazes”. Quero que todos os envolvidos, mas especialmente artistas e fãs – que são quem realmente importa nessa história, o resto é facilitador ou atravessador – possam tentar chegar a uma conclusão dos caminhos que possam ser bons para todos.

Estou esperando os artistas por aqui. Querem me ajudar a convocá-los?

2 de out de 2009

As Histórias do Jabá - Yes, nós temos jabá!!















Dentro de alguns dias vou lançar meu e-book gratuito, "Manual de Sobrevivência no Mundo Digital", baseado nos artigos que escrevi sobre o assunto no blog do meu site.

As críticas e comentários de vocês me ajudarão a formatar um livro que pretendo lançar fisicamente - dando os devidos créditos, é claro.

Relendo para fazer correções, achei esse trecho interessante sobre jabá, que mostra como ele ajudou a dinamitar a indústria da música e a torná-la irrelevante - e desnecessariamente cara.

Resolvi então colocar no Música Líquida para degustação de vocês.


As histórias do jabá

Quando a maioria das rádios se interessava por música, o lançamento de um artista importante era disputado a tapa pelas principais emissoras. Todas queriam exclusividade. Por exemplo, quando a Warner ia lançar um novo single da Madonna, procurava saber que rádio estava em primeiro lugar na audiência em cada cidade importante e dava a esta uma ou duas semanas de exclusividade de execução. Com tal privilégio a rádio era beneficiada com ainda mais audiência interessada em ouvir em primeira mão a nova música da artista. Um jogo com vários ganhadores: a gravadora, o artista e a rádio beneficiada. Com isso a gravadora conseguia convencer as rádios a tocarem outros artistas do seu cast. A moeda de troca era música.

Há alguns anos atrás, quando os CDs vendiam horrores e o jabá imperava, se Deus, pessoalmente – o Deus que você quiser -, viesse à Terra para visitar uma emissora de música jovem com retransmissoras por todo o território nacional e dissesse que compôs uma canção divina, com melodia sublime, uma letra celestial, embora escrita em linhas tortas, e que, na sua banda, o solo de guitarra foi tocado pelo Jimi Hendrix, o de trompete pelo Miles Davis, nas guitarras e nos backing vocals ele contou com John Lennon e George Harrison, que a Janis Joplin, a Cássia Eller, a Elis Regina, o Tim Maia e o Elvis Presley completaram o coro, ele ouviria um muxoxo desinteressado e algumas frases sobre a canção não se adaptar ao perfil da rádio, que os artistas não são jovens, que faz tempo que eles não lançam nada novo, que o programador tem que escutar, mas que tem muita coisa esperando na fila e no final viria uma sugestão de “promoção” que ficaria entre R$ 30.000,00 e R$ 50.000,00 para 40 dias de execução, duas vezes por dia e algo sobre renovar o “acordo” depois disso. E a música? Provavelmente nem seria ouvida. Porque isso não é mais o que importa.

Claro que essa postura fez com que, cada vez menos, esse seja um veículo para descobrir artistas interessantes e diferentes. O veículo ficou mais importante que o seu conteúdo.

O custo do jabá

Essa também foi a razão do CD, que como produto é mais barato que o vinil, ter ficado tão caro. Imagine que você tenha que divulgar um artista de grande porte e que, só na rádio, você vai “investir” R$ 500.000,00. Se a previsão de vendas é de 500 mil discos a “promoção” já encareceu um real cada exemplar. Se pusermos em cima disso o lucro do vendedor (mais um real) e impostos, o CD tem que custar R$ 2,50 a mais, pelo menos. Mas quantos CDs vendem essa quantidade? Os que vendem têm que pagar pelos que não vendem. Como eles acertam um em cada dez, a conta vai ficando salgada.