23 de mai de 2010

Artistas, gravadoras e marcas



Deu em O Globo de 23/05/22010.

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Música S/A
Grandes marcas se associam a gravadoras e artistas, ajudando a tirar a indústria fonográfica do buraco


Antônio Carlos Miguel

Marisa Monte, Lenine, Céu, Arnaldo Antunes, Gilberto Gil, Dona Ivone Lara & Delcio Carvalho, Carlinhos Brown, Vanessa da Mata, Tantinho da Mangueira, Cidadão Instigado, Grupo AfroReggae, Naná Vasconcelos, Marcelo Jeneci... A lista acima, alternando nomes consagrados e emergentes, traz alguns dos patrocinados pela Natura nos últimos cinco anos e forma um elenco para gravadora nenhuma botar defeito. Num momento em que as multinacionais do disco parecem reduzir o investimento em artistas brasileiros, o exemplo da empresa de cosméticos é o mais expressivo de uma tendência que vem crescendo: a associação de grandes marcas à produção musical brasileira. Com isso, ganham artistas, produtores, empresários e as próprias gravadoras, com novos e poderosos parceiros.
Empresas de telefonia, como Oi e Vivo; de roupas, como Levi’s; de refrigerantes, como Coca-Cola; portais na internet, como Terra; fabricantes de automóveis, como Volkswagen e Audi, ou de celular, como Nokia e Motorola; bancos, como o Bradesco; companhias aéreas, como a TAM; e a mineradora Vale (que, este ano, apoia o Prêmio de Música dirigido por José Maurício Machline) engrossam a heterogênea lista.

As formas de atuação podem ser diferentes, mas o objetivo é o mesmo: reforçar o marketing e criar um elo forte com os consumidores de música, que continua sendo uma infalível isca.

Os presidentes das quatro multinacionais do disco que atuam no Brasil, EMI, Sony, Universal e Warner, em afinado coro, confirmam essa parceria, que já vigora há bom tempo no Primeiro Mundo. Segundo José Antônio Éboli, da Universal, a crise fez gravadoras, empresários e artistas perderem certos pudores. Para incrementar ainda mais essas parcerias, sua companhia criou o departamento New Business Development, baseado em São Paulo e ligado ao de música digital.

— Buscamos sinergia com outras marcas, estamos estreitando o contato com as agências de publicidade — revela Éboli.

Na Sony, Alexandre Schiavo também escalou um funcionário com a missão de sair atrás de patrocínios. Ele diz que, no Brasil, havia forte resistência por parte da crítica, dando o exemplo do grupo Jota Quest, atacado por, no início dos anos 00, ter se associado ao refrigerante Fanta. Mas, na época, as farpas vieram também de seus pares, como Marcelo “Los Hermanos” Camelo, em entrevista que rendeu, em julho de 2004, uma briga com Chorão — o líder do Charlie Brown Jr. vestiu a carapuça, já que seu grupo estrelava um comercial da CocaCola, e usou de socos e cabeçadas contra Camelo após um bate-boca em Fortaleza.
Sim, os tempos estão mudando.

Ligado à contracultura nos anos 60 e 70, o compositor, cantor e escritor Jorge Mautner dá seu aval: — Quanto mais investimento na arte, desde que vindo de fontes honestas, é positivo. E mostra a mudança de espírito de nossos empresários. A cultura é que determina a educação e toda a alma da nação.

Recordista em vendas da Universal na última década, Ivete Sangalo é pioneira e o melhor exemplo do novo modelo: em 2005, lançou o CD “As super novas” com o apoio da Avon (que encomendou 350 mil cópias, comercializadas porta a porta através de suas vendedoras); em 2007, teve ajuda do Bradesco na produção do DVD “Ao vivo no Maracanã”; e, agora, associouse à TAM, patrocinadora do show que fará dia 4 de setembro no Madison Square Garden, em Nova York.

— Além de ter Ivete como garota-propaganda, a TAM já consegue retorno para o seu negócio, vendendo pacotes de viagem para os fãs. São cinco dias em Nova York, com o ingresso incluído — diz Éboli, que aposta nessa via.

— É o presente e o futuro. A música é uma isca infalível.

Empresa brasileira que mais investiu na música nesta década, através de seu Programa Natura Musical, a marca de cosméticos conta com muitas iscas atrativas, mas, como frisa sua gerente de marketing institucional, Renata Sbardelini...

— Vender música não é nem será o objetivo de nossa marca, e sim cosméticos — diz Renata, que, nos mais de 130 projetos patrocinados contribuiu para a realização de 205 shows, 40 CDs/DVDs e ainda workshops, oficinas, palestras e festivais.

A Natura chega a seu eclético elenco a partir de duas premissas básicas, como explica a executiva: — O primeiro, mais conceitual, é de que sejam artistas com o recorte estético da Natura.

E o segundo, de artistas que trazem uma identidade brasileira, mas com o potencial de atravessar fronteiras, de abrangência universal.

Além de isca, e prestígio, ainda há um bom negócio no negócio em si. Disco pode não mais vender, mas música, em outras plataformas, sim.

Para Leonardo Netto — empresário de Marisa Monte (apoiada pela Natura no show “Infinito particular” e no DVD com o registro dessa turnê internacional) e Adriana Calcanhotto, e que até 1981 foi da equipe de André Midani na Warner —, as gravadoras são lentas na adaptação a novos modelos, “foram cegas em relação à força da internet”, mas detêm um patrimônio valioso e começam a se reinventar: — Elas têm a trilha sonora da nossa vida. Mas, no Brasil, o que falta para entrarmos num novo modelo é um site forte de venda na internet. O que deve acontecer com a provável entrada do iTunes, agora em outubro — diz.

Apple cresceu graças à música

O presidente da EMI, Marcelo Castello Branco, no entanto, não confirma a chegada da loja virtual da Apple: — H á u m a e x p e c t a t i v a crescente, após, em agosto passado, o iTunes ter entrado no México. Mas não temos indícios de que isso aconteça já em outubro por aqui.

Schiavo revela que a Sony fez um grande estudo do mercado digital no Brasil, enviado há um mês para a Apple: — Ele mostra que o Brasil deverá ser o quinto maior mercado da iTunes Store.

Para Sérgio Affonso, da Warner, a marca da Apple poderá mudar o jogo: — Mesmo que algumas plataformas de venda digital no Brasil estejam crescendo, a loja do iTunes vai ter um grande e benéfico impacto.

Enquanto o iTunes não chega, a indústria comemora alguns feitos. Na EMI, a parceria com a Nokia, em 2009, rendeu a venda de 312 mil unidades do disco de Katy Perry.

— O celular vinha com o disco inteiro, que também teve uma edição física, que vendeu 15 mil CDs. O perfil do consumidor e sua exigência mudaram, e temos que atender a essa demanda — completa Castello Branco.

Mesmo que o mercado físico, de CDs e DVDs, persista — com fenômenos como a volta dos LPs de vinil em determinados nichos —, é virtualmente que trafega a música. E com valor cada vez mais forte — como prova a própria Apple, que se reinventou e cresceu ao lançar o iPod e o iTunes.

Mas há sinais disso até em exemplos domésticos. É o caso da estreia do grupo carioca Sobrado 112. A tiragem física, lançada em outubro passado, inaugurando o selo OiMúsica, foi de três mil CDs, mas 200 mil usuários já pagaram R$ 4 pelo download para seus celulares de faixas avulsas.

Façam as contas: R$ 800 mil, dinheiro que cobriu a produção do disco, o trabalho de marketing e deu lucro.

— O CD físico funciona como um cartão de visitas para o grupo, junto à mídia, aos empresários de shows, mas, hoje, os consumidores estão principalmente nos celulares — diz Bruno Vieira, diretor de Serviço de Valor Agregado da empresa e responsável pelo selo OiMúsica, que acaba de lançar seu segundo disco brasileiro, “Copacabana”, do grupo Fino Coletivo, e abrir uma vertente internacional, com “Roots/The best of... so far...”, do grupo australiano The Beautiful Girls. — Lançaremos quatro artistas estrangeiros e quatro nacionais por ano. No segundo semestre, editaremos a cantora e compositora paulistana Luísa Maita.

No caso da OiMúsica, uma forte estrutura alavanca seu iniciante catálogo: além do mercado de truetones para celulares (o principal canal de download pago de música no Brasil), a empresa tem 12 emissoras de rádio espalhadas pelo país, teatros no Rio e em Belo Horizonte, portal e TV na internet. Mesmo que setorizados, a divulgação e o marketing estão garantidos, seus artistas entram nos ares radiofônicos sem jabá.

— No portal Oi Novo Som, que funciona como o MySpace, temos 4.500 bandas cadastradas, o que mostra a enorme produção de artistas novos — diz Vieira, que não descarta investir em nomes consagrados.

— Estamos em negociação com muita gente.

Outros portais confirmam esses números. A Trama Virtual tem mais de 160 mil músicas e 70 mil artistas cadastrados.

Os dados são atualizados diária e automaticamente na página da gravadora dirigida por João Marcelo Bôscoli, que, em outra frente, o site Álbum Virtual, faz parcerias com empresas como Volkswagen, Audi e VR, que permitem o lema “De graça pra você e remunerado pro artista”.

Novas ideias para novas trilhas

Bôscoli estreou o formato em 2008, com “DançEcirc;h-Sá ao Vivo”, de Tom Zé, seguido de, entre outros discos, “Artista igual pedreiro” (Macaco Bong), “Donkey” (Cansei de Ser Sexy) e “Chapter 9” e “Piquenique” (Ed Motta).

Há artistas novos que disputam o prêmio de um videoclipe dirigido por profissionais do setor na Plataforma Levi’s Music.

Este ano, em sua terceira edição, o concurso da fábrica de jeans, com votação pela internet, traz cinco grupos apadrinhados por cinco curadores.

Foi de olho nessas novas opções que, no início dos anos 00, o então guitarrista e compositor Rafael Rossatto trocou a banda gaúcha Bidê ou Balde pelo escritório do empresário Manoel Poladian. Em 2004, ele criou a Agência de Música, que atualmente empresaria Marcelo Camelo e Mallu Magalhães: — O primeiro de Mallu foi lançado pela Vivo/Motorola antes do CD físico, enquanto Camelo teve apoio do site Sonora, do Portal Terra. Esse é um dos caminhos. A indústria está mudando, e não quebrando, como muitos pensavam.